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Etiópia, uma Viagem Fora de Serie

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A Etiopia nao é para qualquer um, já dizia nosso amigo Carlos, um profundo conhecedor do país por ter negócios por lá.
É preciso sair da zona de conforto para poder admirar o que o país tem de mais interessante e nao se importar com a falta de estrutura para o turismo se quiser apreciar a viagem.
A Etiopia é um destino para quem quer ser impactado física e emocionalmente e apesar de todo o desconforto que vai encontrar pelo caminho o viajante vai trazer, por outro lado, memórias incríveis  das igrejas escavadas de Lalibela, das paisagens espetaculares das montanhas Simien e Gheralta, do imenso Lago Tana, da depressão de Danakil, onde esta o deserto mais quente do mundo, das planícies do sul e do Vale do Omo, onde residem as tribos mais primitivas e fascinantes do mundo.
Um Pouco de Historia
  • O Império de Axum  (Etiópia é parte do Sudão e Iêmem) foi considerado um dos 4 grandes impérios da Antiguidade  junto com os impérios  Romano,  Persa e  Chinês.
  • Haile Selassie  foi imperador por 40 anos, descendente de Salomão e Sabá, era o Leão de Judá, o Leão do Sião, o “Negusa Negast” isto é, o Rei dos Reis segundo o livro Kebra Negast que conta a história da Dinastia Salomônica. Sua figura é lendária, controversa e fantástica. Tinha o título de Makonen Ras Tafari e mais tarde renomeado Haile Selassie . Bebendo nessa fonte e baseado em forte cunho político , por volta 1925 o “profeta” jamaicano Marcus Garvey fundou a religião dos Rastafaris com o Deus Jah (que é a grafia latina de Jeová) para resgatar o orgulho da raça negra. A figura de Selassié é adorada como uma reencarnação de Jah. O Rastafarianismo não é considerada uma autêntica religião africana, mas uma “criolizacao” do que estava acontecendo nas colônias da América Central.
  • A Arca de Moisés “verdadeira” está em Axum e teria sido trazida de Israel a pedido de Salomão por Menelik I quando foi conhecer o pai. Menelik seria filho de Salomão com a Rainha de Sabá. Salomão o reconheceu como filho e como estava em guerra, sendo atacado, pediu a Menelik para levar a Arca para lugar seguro e protegê-la. Desde então reza a tradição/lenda que a Arca da Aliança está na Etiópia, na Igreja de Santa Maria do Sião em Axum. Por isso a Etiópia tem tanta ligação com o Judaísmo. Israel nos anos 90 resgatou 130.000 judeus etíopes, mas ainda existem alguns e o cristianismo etíope tem muitas referências dos judaísmos assim como do Islamismo.
  • O cristianismo chegou na Etiópia por volta do sec IV graças a dois irmãos sírios cristãos. Um deles teve muita influência sobre o imperador que o fez tutor dos seus filhos que se converteram ao cristianismo. Quando um desses filhos subiu ao trono, enviou esse Sirio ao Egito onde foi nomeado Bispo Kopta e assim ele pode voltar a Etiópia e fundar e tornar-se o primeiro Patriarca da Igreja Ortodoxa Etíope e o Imperador declara o Cristianismo então, religião oficial ainda no sec IV.

Addis Abeba:

Onde Ficar:

  • O Sheraton é um oásis dentro do caos!

O Que Ver:

  •  Museu Arqueológico – visitamos a Lucy 115 milhões  de anos e o Selam (que é uma criança de uns 6 anos)  com 130 milhões.
  •  A Catedral – é pobre. Tem um belo lustre de Murano presente da Rainha Elizabeth II e os imponentes tronos do Selassié e sua mulher. Por detrás do Holly tem o HOLLY OF HOLLY, que toda igreja tem, onde só o padre entrar, e que contém uma cópia da Arca de Moisés.
  •  Mercatto – Caos! É imenso, lembrança do maior entreposto da África Setentrional desde o sec IV, hoje é um formigueiro humano, uma Serra Pelada de coisas a serem vendidas, trocadas, consertadas e recicladas. As mercadorias se amontoam pelos telhados e as ruas são labirintos apinhados de gentes. Perde-se o mercado no horizonte poluído da cidade. Uma Babel esparramada dentro da capital. Homens sentados diante de máquinas de costura fazem consertos e reparos. Os manequins são expostos pendurados pela cabeça como um bando de enforcados que balançam tristes com roupas sintéticas e coloridas. Muitos homens desocupados apenas encostados conversando

Bahir Dar :

O Que Ver:

  •  Às margens do imenso Lago Tana visitamos a lindíssima igreja de Bet Mariam (dedicada à Nossa Senhora) do sec VI , circular, com lindas pinturas feitas em tela de algodão  aplicadas sobre Adobe e com a Cruz no topo –  que depois veríamos se repetir , enfeitada com ovos de avestruz.

  • Do Lago Tana nasce o Nilo Azul que em Khartum junta-se ao Nilo Branco para formar o Rio Nilo.

 Simien Mountains:

  • Ficamos no Limalimo Lodge que foi o mais charmoso de toda a viagem com um terraço bárbaro e comida deliciosa

O Que Ver:

  •  Fizemos uma longa caminhada e desfrutamos de paisagens deslumbrantes guiadas por trackers armados de metralhadoras e rifles! Ali os milhares de baboos reinam absolutos
  • No dia seguinte em Gondar  visitamos o complexo de Castelos e Balneário de Fasilides do sec XVI que durante a guerra foram usados pelos italianos como QG e Arquivos e por isso foram bombardeados

Lalibella :

O Que Ver:

  • O ponto alto do ponto de vista do cristianismo Etiópe. No sec XI, num espaço de menos de 200 anos foram construídas 13 igrejas escavadas na pedra. Algumas Monolíticas (todos os lados destacados da pedra) outras semi-Monolíticas (algum/alguns lado é preso à pedra) e outras Cave-Churches (toda dentro de uma caverna). Ponto alto a incrivel igreja de São Jorge que visitamos no primeiro dia apenas por fora e no segundo dia, por dentro. Visitamos outras várias igrejas e também cave-church impressionante que tinha também um cemitério de múmias empilhadas… Visão meio macabra…

Gheralta

O Que Ver:

  •  Uma planície e uma parede majestosa. Acordamos de madrugada para o voo de balão. Foi uma experiência única, não só pelo lindo voo sobre a planície que despertava, mas principalmente pela nossa chegada. Era Sexta Feira Santa, os camponeses muito simples e religiosos nunca tinham visto um balão por ali e acharam que a cesta do balão era a Arca de Moisés que tinha saído da Igreja de São Miguel e que subia pelos ares por milagre. Quando descemos as pessoas vinham de toda parte correndo para ver a maravilha. Uns choravam outros apenas olhavam curiosos-espantados-encantados-tímidos.  O que seria aquilo? Cercaram o balão com reverência e curiosidade. Tinha acabado de viver um momento em que os mundos espirituais e terrenos pareciam se tocar, tinham “presenciado” o sobrenatural e agora lidavam com o enigma do desconhecido de outra ordem: o “lá fora imenso” , o mundo que eles desconhecem estava ali… Foi incrivelmente forte. As vacas corriam, os cães latiam, os jumentos se agitavam: naquelas bandas parece que tudo afeta todos – bichos e gentes, uns! Ficamos sabendo que o dono do balão que nos pedia o tempo para acenar friendly para as pessoas, temia que alguém atirasse no balão, por medo, já que muitos andam armados naquela região …
  • À tarde subimos o paredão de Gheralta para visitar as igrejas encrustradas nas rochas. Uma subida extenuante de 3 horas com guias locais mambembes. A força da fé que move os monges a construir capelas e igrejas em escarpas e grupas inacessíveis é um mistério. A vista é espetacular! Foi um dia inesquecível. A Sexta Feira da Paixão foi vivida com sacrifício, contemplação e superação e teve uma dose linda de encantamento com o episódio do balão.

Omo Valley:

Onde Ficar:

  • O Lale’s Camp foi nossa casa por 3 noites. Rústico mas confortável à margem do rio dirigido pelo próprio Lale, um homem de origem Kara muito simpático e com uma história fascinante.

O Que Ver:

  • O barulho da mata à noite era fantástico! Uma sinfonia de pássaros, grilos, macacos, sapos enchiam o ar de vida.
  • O Rio é enfestado de crocodilos e aves fazem ninhos gigantes nas árvores à margem
    Pássaro especial se destacou: o Northern Carmine Bee Eater
  • Visitamos no primeiro dia a tribo Hamar. Pastores nômades. Alguns homens portavam rifles o que causa certa estranheza.
    Eles são desconfiados e não sorriem muito, mas não são hostis ou desagradáveis. São sérios, curiosos e na deles. Vimos muitos com problemas nos olhos…
    As crianças ficam encantadas com os celulares e adoram ver suas fotos
    Tocam nossas roupas, medalhas, fivelas de cabelo, relógios. As “louras” fazem sucesso.
  • O cheiro nas vilas é muito forte. Às vezes até desagradável
    Eles gostam de apertar nossas mãos quando chegamos e isso é meio aflitivo
  • No segundo dia descemos o rio Omo por 2 horas para visitar os Mursis. Esses são mais ariscos e mal-humorados. São eles que fazem as escarificações e as mulheres usam os pratos labiais de argilas. As mulheres fazem muitas “tatuagens” como quelóides, em relevo. É bonito e primitivo. O corpo usado como espaço artístico, embora não deixem de ser mutilações para nossos padrões, especialmente os lábios. Tínhamos planos de dormir acampadas no acampamento Mursi mas por causa das chuvas o Lale achou mais prudente voltarmos para o Camp o que foi um alívio pois caiu a maior tempestade à noite. Teria sido punk dormir ali em barracas apertadas com banheiros improvisados fora das barracas! Thanks, God!

  • À tarde fomos visitar os Kara e assistir ao seu encontro semanal que é celebrado com muita dança, conversa e alegria. Os Kara são mais sociáveis e divertidos. Enfeitam-se lindamente com muitos colares e pintam os rostos com argila branca. Os cabelos são produzidos com barro vermelho e ficam com a aparência de feijão. Foi o contato mais festivo e alegre.
  • O último encontro foi com os Nyagatons. Os mais hostis e arredios. Pastores, já convivem com um contingente chinês de alguma construtora de infra-estrutura. Uma tragédia. Os homens já usam camisetas e já tem um jeito malicioso. As crianças são sempre as mais receptivas, mas mesmo assim, não há sorrisos fáceis…

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