O que vivi e aprendi em Cuba

 

por Eneida Braga

 

Passei recentemente duas semanas em Cuba e pra quem se interessar fiz um relato do que vivi e aprendi por lá. Me surpreendi com tanta coisa que resolvi compartilhar aqui com quem se interesse. Tentei resumir e deixei muita coisa de fora. Já estava ficando longo demais.
Não saberia viver como eles vivem, mas como disse o Obama, temos muito a aprender com eles.
Sei que o assunto gera muita polêmica.

 

Economia
Por conta da sobrevivência da economia dependente do turismo, do embargo e da moeda local fraca, Cuba usa um inusitado sistema de duas moedas correntes. O peso cubano, super desvalorizado, é a moeda oficial com que o povo vive e recebe salários. Os pesos conversíveis ou CUCs são pareados com o euro e usados para o turismo e atualmente para o que foge ao básico. Inclua-se no básico, espetáculos teatrais, musicais, cinema e exclua muitos itens de vestuário, eletrodomésticos (na maioria das vezes, só podem ser adquiridos em CUCs mas o governo recentemente trocou todas as geladeiras do país por um modelo chinês que consumia menos energia). Nos locais muito turísticos o CUC é a moeda que impera. Foi a forma do país ganhar com o turismo lidando com o embargo econômico que asfixia o país há mais de 50 anos. A relação entre os dois é de 23 x 1. Por isso criou-se uma espécie de aberração social, pois quem trabalha com turismo ganha em CUCs e tem o maior poder aquisitivo. E vários profissionais graduados abandonam suas carreiras para se dedicar a esse ramo. Vi alguns pedintes na parte histórica de Havana. Pensando que as esmolas são em CUCs, poderiam ser em número bem maior. Afinal, um mendigo poderia ganhar muito mais que um médico por exemplo.
Foi revelador ver o imenso numero de profissionais que prefere trabalhar no que gosta em vez de ganhar mais em trabalhos menos gratificantes. E dentre as pessoas que conheci, as mais insatisfeitas com o sistema eram paradoxalmente as que ganhavam na moeda forte.
A entrada de moeda forte do turismo e dos expatriados não enriquece ninguém. São extremamente solidários. Dividem o que recebem com parentes e vizinhos. E todos tem alguém que depende de ajuda. Vi vários exemplos disso.

 

Dicas de Havana, Cuba

 

Turismo
O turismo dos países de primeiro mundo está bombando no país, principalmente por europeus e canadenses. Existem voos diretos do Canadá e países europeus até Havana e Varadero. O governo permeia todo o sistema turístico, ou como dono, ou como sócio majoritário em hotéis, restaurantes, ônibus, locadoras, agencias de turismo, cias aéreas, ou como regulador, cobrando parte do que é arrecadado como em táxis, passeios em carros antigos (particulares), estadia em casas de cubanos. Tudo requer uma licença do governo. Quer alugar um quarto da sua casa? Só se for licenciado. Há um livro de registro e um recibo assinado pelo hóspede. É um modo barato e autêntico de conhecer melhor o país e seu povo. Não se pode hospedar um estrangeiro sem autorização. Nem dar carona. Existem sites cubanos para aluguel de quartos nas chamadas casas particulares. Bem toscos pro nosso padrão.
Os carros antigos agora são uma atração turística importantíssima que encanta a turistada Show de criatividade!!
O embargo tem papel predominante no desabastecimento, já que qualquer empresa que negocie com Cuba sofre multas dos EUA se quiser negociar com eles. E o país carece de industrialização. Aí a gente se depara com esquisitices como papel higiênico vietnamita e eletrodomésticos chineses.
Não existe financiamento nem cartão de crédito. Tudo americano, né. É tudo na base do cash e os investimentos são na base de economia familiar.
Viajei pelo país e andei por Havana. Vi muitos prédios sem conservação e outros lindamente restaurados. Vi avenidas largas com mansões, resquício de outros tempos. Algumas são de moradores desde o período do Fulgêncio Batista e outras são embaixadas. Não vi nenhum casebre nem favelas.
Segurança invejável. Para quem vive em uma cidade violenta como o Rio e está viajando sozinha, faz muita diferença. As cidades muitas vezes carecem de iluminação noturna e apesar disso são seguras.
Os carros de polícia, assim como ambulâncias, são modernos e bem equipados. Achei um fator muito positivo essas prioridades.

 

Dicas de Havana, Cuba

 

Internet
Um suplício conseguir se conectar. É lenta e cai com frequência. Em hotéis e algumas praças existe um wifi que é usado através da compra de cartões fornecidos pelo governo custando 2 CUCs a hora. Soube que essa internet existe graças a Venezuela que instalou cabos ópticos subaquáticos. Lá todos gostam dos líderes venezuelanos, para meu espanto. O combustível vem de lá também. Nas universidades há acesso à internet. No ensino médio e fundamental, não.

 

Comida
Os alimentos são sem agrotóxicos, o que faz a comida mais saborosa.
Arroz e feijão são comuns na alimentação. O arroz congris misturado com um pouco de feijao é típico de lá. Frutos do mar com destaque as lagostas com preço acessível.
O café cubano é delicioso onde quer que seja. As frutas mais comuns nessa época são goiaba, banana e abacaxi. Uma saborosa fruta local é o mamey, com sabor semelhante ao mamão. Os sucos naturais são onipresentes, mas costumam vir adoçados. Tem que avisar se prefere sem açúcar. Os melhores locais são em moeda forte.

 

 

Mitos desfeitos
Para os cubanos, sair do país a passeio é permitido. É só ter dinheiro e conseguir visto do país que irá visitar (costuma necessitar de um convite de uma pessoa naquele país).
Não é proibido falar mal do governo, mas a propaganda dos lideres da revolução é maciça com outdoors em todo o país.
Conversei longamente com um médico cubano, pesquisador bastante conceituado. Perguntei a respeito da formação médica e são 6 anos como aqui. As especializações são semelhantes as nossas também. As missões no exterior são bem cobiçadas, às vezes na base do quanto pior, melhor. O heroísmo tem valor social. E com 2 anos fora, conseguem comprar uma casa.

 

Saúde
A saúde como sabemos, é universal e gratuita. Os recursos são mais bem administrados que os nossos. O combate à dengue é bem mais eficaz e rigoroso. Uma pessoa com febre sem causa evidente por exemplo é imediatamente internada em isolamento com mosquiteiro, o redor de sua residência desinfestado e o caso monitorado.
Existem locais de atendimentos pra estrangeiros. Precisei recorrer a emergência por um problema nos olhos. Na minha imaginação passaria o maior sufoco pra conseguir tratamento que não fosse de atenção básica. No hospital havia oftalmologista pra me atender prontamente. Saí do hospital com colírios, um relato da consulta com desenho do olho mostrando o local da lesão e tratamento efetuado pra que houvesse seguimento em qualquer local do país que estivesse.
Os seguros do cartão de crédito não são oferecidos pelo Mastercard ou VISA por causa do embargo. O país oferece um seguro pra estrangeiro por pouco mais de 3 euros/ dia que pode ser feito no aeroporto.

O povo em geral é alegre e afetivo. Esperava encontrar pessoas mais melancólicas.

 

 

Arte, musica e dança
Graças a assistência personalizada que tive de uma brasileira que vive lá, consegui assistir ótimos shows de cantores famosos e espetáculos de ballet de altíssimo nível. São oferecidos nas duas moedas.
Até os músicos que tocam em restaurantes são graduados. O país forma mais músicos do que pode absorver.

 

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